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Editora: 12min
Os Estados Unidos mantêm no Brasil uma embaixada em Brasília e consulados em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre. É neles que acontecem as entrevistas de visto e o atendimento a cidadãos americanos no país. Quando esse atendimento para em todos os endereços ao mesmo tempo, o efeito é concreto: na sexta-feira, 2 de outubro, quem chegou com hora marcada encontrou as portas fechadas e um aviso de que os serviços estavam suspensos.
O comunicado havia sido divulgado na noite anterior, quinta-feira, 1º, e dizia apenas que a decisão se devia a "questões de segurança", sem detalhar qual ameaça. Americanos que precisassem de ajuda emergencial foram orientados a não comparecer às instalações diplomáticas.
Horas depois, a Austrália fechou sua embaixada em Brasília citando o alerta americano, enquanto Canadá, Reino Unido, Alemanha e Irlanda atualizaram suas orientações de viagem mencionando o calendário eleitoral brasileiro. O primeiro turno estava marcado para dois dias depois, no domingo, 4 de outubro.
Na segunda-feira, 5, os serviços haviam sido retomados. O que permaneceu foi a dúvida sobre o que levou os Estados Unidos a fechar simultaneamente sua embaixada e os consulados no Brasil.
Segundo apuração da Folha de S.Paulo junto a autoridades envolvidas na investigação, o fechamento foi motivado por uma publicação em rede social na qual uma pessoa dizia que colocaria uma bomba na embaixada americana.
Uma operação policial chegou ao autor da mensagem, mas não encontrou nenhum artefato explosivo. A Polícia Federal cumpriu dois mandados de busca e apreensão em São Paulo e no entorno do Distrito Federal.
Em nota, a PF afirmou que não foram encontrados elementos que confirmassem os riscos inicialmente apontados nem identificados suspeitos de envolvimento com organizações criminosas. Segundo a corporação, a ação teve caráter preventivo e fazia parte de uma investigação sigilosa ligada à cooperação com agências de inteligência estrangeiras.
A análise dos equipamentos apreendidos continua.
O Departamento de Estado afirmou que a administração Trump "não tem prioridade maior do que a segurança dos americanos" e que trabalhava "em estreita colaboração" com as autoridades brasileiras.
Apesar do fechamento das instalações, a classificação de risco do Brasil para viajantes americanos não mudou. O país continuou no nível 2 de uma escala de 4.
Diplomatas americanos ouvidos pela Folha disseram que ameaças em redes sociais contra representações dos Estados Unidos são frequentes e levadas a sério. Segundo eles, porém, a inteligência normalmente avalia a credibilidade da ameaça antes de tomar medidas e esse tipo de mensagem não costuma levar ao fechamento de todas as unidades diplomáticas de um país.
Na avaliação da analista de relações internacionais Fernanda Magnotta, ouvida pela CNN Brasil, alertas de cautela durante eleições polarizadas são comuns, mas a medida adotada no Brasil chamou atenção pelo momento e pela extensão.
Em Brasília, o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Distrito Federal foi deslocado para o perímetro da embaixada a pedido da própria representação americana. Em São Paulo, a PM isolou o entorno do consulado.
O fechamento ocorreu depois de uma sequência de atritos entre os governos brasileiro e americano.
Em julho, o governo de Donald Trump anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros, resultado de uma investigação comercial conduzida pelo escritório do representante comercial americano. A medida entrou em vigor em 22 de julho.
Antes disso, em julho de 2025, Washington havia sancionado o ministro Alexandre de Moraes com base na Lei Magnitsky, em uma medida relacionada à atuação do ministro no processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe. As sanções foram revogadas em dezembro.
Também houve um impasse diplomático envolvendo representantes dos dois países. Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, enquanto o Brasil não concedia o agrément, autorização prévia para que um embaixador assuma o posto, ao diplomata americano Daniel Perez, indicado por Trump para Brasília.
No mês anterior ao fechamento, os muros da embaixada americana em Brasília foram pichados e uma bandeira dos EUA foi queimada durante um protesto contra a indústria bélica americana.
Na quinta-feira, 1º, uma bolsa abandonada perto do Supremo Tribunal Federal também mobilizou a polícia em Brasília. A suspeita de bomba foi descartada depois que foram encontrados apenas itens pessoais.
Dois dias antes do fechamento, na quarta-feira, 30, o jornal britânico The Guardian noticiou que o governo americano havia destinado cerca de US$ 1 milhão a um programa chamado "Combate à Litigância Deliberativa e à Censura no Brasil".
O programa financia grupos da sociedade brasileira que se opõem ao que consideram abuso de poder judicial e censura por parte do STF. O dinheiro faz parte de um pacote de US$ 175 milhões do principal fundo de direitos humanos do Departamento de Estado, com recursos destinados também a outros países.
Na quinta-feira, 1º, a Advocacia-Geral da União pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República que investigassem se líderes da direita brasileira haviam recebido esses recursos.
O objetivo declarado nos ofícios era identificar eventuais beneficiários para avaliar se havia uma "estrutura de ingerência externa em assuntos internos do Estado brasileiro".
No domingo, 4, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, disse que a corporação havia aberto uma apuração sobre uma possível interferência americana nas eleições. O procedimento estava em fase preliminar na Diretoria de Inteligência, e a portaria de instauração do inquérito ainda não havia sido publicada.
Nenhum beneficiário havia sido nomeado até aquele momento. Na mesma ocasião, Rodrigues afirmou novamente que a PF não havia encontrado elementos concretos de risco contra as embaixadas.
O fechamento ocorreu dois dias antes do primeiro turno da eleição brasileira, o que aumentou a atenção sobre a decisão americana. Países como Canadá, Reino Unido, Alemanha e Irlanda também atualizaram orientações de viagem mencionando o período eleitoral.
Antes da votação, Trump disse que acompanhava a eleição brasileira "muito de perto" e que era "uma eleição muito importante", sem citar candidatos. Diferentemente do que havia feito em outros países da região, não declarou apoio a nenhum deles.
Na segunda-feira, 5, após a reabertura das instalações americanas, Trump publicou na Truth Social uma mensagem sobre o resultado da votação brasileira e fez críticas ao sistema eleitoral dos Estados Unidos. A publicação não mencionou os candidatos brasileiros.
A eleição, portanto, fazia parte do contexto em que o fechamento ocorreu, mas não há, nas informações públicas citadas nesta matéria, confirmação de que a decisão tenha sido motivada pelo processo eleitoral.
O fechamento durou um dia útil e terminou com a retomada dos serviços na segunda-feira. A investigação da PF, por sua vez, não encontrou elementos que confirmassem os riscos inicialmente apontados.
Ainda assim, a análise dos equipamentos apreendidos continua, e a motivação exata para a decisão de fechar simultaneamente a embaixada e os consulados não foi detalhada publicamente pelos Estados Unidos.
Também segue em andamento a apuração brasileira sobre os recursos destinados pelo governo americano a grupos no país. Até agora, o que está público é a reportagem sobre o financiamento, o pedido de investigação feito pela AGU e a confirmação da PF de que existe uma apuração preliminar.
O episódio reúne, portanto, dois fatos diferentes: uma ameaça publicada em rede social que levou ao fechamento das representações diplomáticas e uma relação entre Brasil e Estados Unidos marcada por uma série de atritos recentes. A investigação ainda precisa esclarecer o peso que cada um desses elementos teve na decisão americana.
Separe o que já está comprovado do que ainda está sob investigação. O fechamento das representações diplomáticas aconteceu após uma ameaça publicada em uma rede social, mas a Polícia Federal não encontrou elementos que confirmassem os riscos inicialmente apontados. A análise dos equipamentos apreendidos continua.
Também é preciso separar o fechamento da embaixada do contexto mais amplo da relação entre Brasil e Estados Unidos. Os dois países já vinham acumulando atritos comerciais e diplomáticos, mas não há, até agora, uma explicação pública detalhada sobre quanto cada um desses fatores pesou na decisão de fechar simultaneamente a embaixada e os consulados.
O que dá para acompanhar nas próximas semanas é o resultado da análise feita pela PF e eventuais novas informações das autoridades americanas sobre o motivo do fechamento. Também vale observar o andamento da apuração sobre o financiamento americano a grupos brasileiros e se ela identifica beneficiários ou outros elementos concretos.
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